Seis meses após posse de Bolsonaro, oposição segue desorganizada


Fernando Haddad discursa durante evento para celebrar os 39 anos do Partido dos Trabalhadores (PT), em São Paulo Foto: Sebastião Moreira/ EFE

 

Depois de o PT ser derrotado no segundo turno por Jair Bolsonaro, havia a expectativa de que a oposição conseguiria se organizar politicamente para se contrapor solidamente ao novo governo. Mas, seis meses depois da posse presidencial, o que se vê é que os principais problemas enfrentados por Bolsonaro são causados por integrantes de sua própria equipe ou por grupos políticos próximos do seu campo ideológico, como é o caso dos integrantes do Centrão.

Dos petistas, pelo tamanho de suas bancadas, esperava-se que liderassem o processo de oposição dentro do Congresso. O partido têm preferido, no entanto, insistir em concentrar seus esforços na campanha pela libertação do ex-presidente Lula. À exceção de bastante gritaria em algumas sessões na Câmara e no Senado, o PT tem passado longe de incomodar o governo e ficou muito mais concentrado na torcida para que o Supremo soltasse o ex-presidente do que na discussão da reforma da Previdência, por exemplo.

A oposição tinha uma oportunidade real de marcar presença na discussão, por exemplo, da reforma da Previdência. O PDT de Ciro Gomes, e o PSB ainda se organizaram para discutir o tema e tentar apresentar alternativas, mas já desembarcaram da iniciativa.

Já PT, PSOL e PCdoB preferiram ser refratários à discussão. Assim, os defensores da proposta têm enfrentado muito mais resistência nesse debate de setores corporativos contrários às mudanças, como é o caso de policiais, professores e servidores. Os partidos do Centrão também têm verbalizado com muita mais veemência suas queixas contra a proposta.

Até governadores e prefeitos têm sido mais efetivos nas críticas ao projeto. Assim, se a reforma avançar ou recuar, isso independe dos movimentos políticos feitos pela oposição. Nessa reportagem, você pode ver que a discussão da proposta tem enfrentado problemas para avançar na Comissão Especial da Câmara, mas isso não corresponde a alguma ação organizada dos partidos de oposição.

É normal que forças políticas enfrentem dificuldades depois de uma mudança tão expressiva no cenário como aconteceu com a vitória de Jair Bolsonaro. O PT não está sozinho nesse barco. Acostumado a polarizar com os petistas as disputas presidenciais, o PSDB amargou seu pior resultado na disputa pelo Planalto em 2018 e está precisando se reinventar sob a liderança política do governador de São Paulo, João Doria.

Mesmo sendo um movimento de reconstrução, o PSDB já conseguiu provocar uma reação de Bolsonaro. Na discussão pela organização do GP Brasil de Fórmula 1, disputado por São Paulo e Rio, o presidente trocou farpas com Doria, ironizando sua pretensão ao Planalto em 2022. Você pode ver aqui como foi essa discussão. Aqui, você pode ler a reação do governador paulista.

O PT, ao contrário, ainda segue engessado na pauta do “Lula Livre” e tenta aproveitar o efeito do vazamentos das mensagens de integrantes da Lava Jato com Sérgio Moro para tentar minar a credibilidade do ministro da Justiça. O objetivo é o de tentar invalidar a condenação do ex-presidente considerando que a atuação de Moro como juiz desses casos foi abusiva. Mesmo com sua imagem desgastada pelo problema, o ministro conseguiu receber apoio popular importante, depois das manifestações organizadas no fim de semana pelo País. O Estadão mostrou bem como foram as manifestações.

Assim, é difícil vislumbrar qual seria o projeto eleitoral do PT para as próximas eleições, sejam as municipais no ano que vem, ou as estaduais e nacionais de 2022. Preso nessa espécie de sebastianismo tropical, que aguarda pela libertação de Lula, o partido corre o risco, inclusive, de sequer encabeçar a chapa na disputa por capitais importantes, como em São Paulo. O partido nem precisaria deixar de lado sua luta pela libertação de seu principal ator político. Mas deveria estar preocupado em tentar construir algum projeto de poder capaz de responder ao atual governo. Por enquanto, foram seis meses onde a oposição tem sido mera figurante.

Por Marcelo de Moraes, Editor do BR18 para o Estadão