Estudos apontam que aplicativos de transporte têm piorado o trânsito em cidades americanas


Por ALEXANDRE PELEGI

Pesquisas e estudos realizados em diversas cidades americanas trazem um dado polêmico, que contesta um dos principais discursos das plataformas de transporte particular: ao contrário do que afirma, este tipo de serviço aumenta o trânsito nas cidades onde atuam.

As cidades de Manhattan e São Francisco foram algumas das que apresentaram altos números de congestionamento.

Em São Francisco, na Califórnia, uma pesquisa realizada em junho de 2017 apontou que a cidade, em um dia de semana típico, alcançou a marca de 170 mil corridas de aplicativos por dia, 12 vezes o número de corridas de táxi feitas na mesma área, em locais que já apresentam grande trânsito.

Já em Manhattan, um dos mais densos e povoados bairros de Nova York, o aumento de táxis e carros de aplicativos piorou o trânsito em suas ruas.

Outro estudo incluiu pesquisas de 944 usuários saudáveis durante quatro semanas no final de 2017 na área de Boston, capital e cidade mais populosa do estado norte-americano de Massachusetts. Quase seis em cada 10 entrevistados disseram que teriam usado o transporte público, caminhariam, ou desistiram da viagem, se os aplicativos de carros compartilhados não estivessem disponíveis.

Outra pesquisa divulgada em outubro do ano passado reforça esse ponto, e envolveu mais de 4.000 adultos em Boston, Chicago, Los Angeles, Nova York, San Francisco, Seattle e Washington, DC. A pesquisa concluiu que 49 a 61 % das viagens por aplicativos de transporte não seriam realizadas se os serviços oferecidos por empresas como Uber e Lyft não existissem.

O estudo realizado em Boston descobriu que a principal razão pela qual as pessoas optaram pelo Uber ou Lyft foi a velocidade. Mesmo aqueles possuidores de um cartão de transporte público optariam por trocá-lo pelos aplicativos, apesar do custo mais alto.

Um dos entrevistados, que não possui carro, chegou a afirmar que preferiria tomar um Uber que o levasse diretamente ao destino, ao invés de ter que mudar de modo de transporte algumas vezes, e ficar esperando em um ponto de ônibus.

Uber e Lyft, duas grandes empresas de aplicativos nos EUA, não arredam pé da cantilena de que carros compartilhados reduzem a quantidade de carros próprios nas cidades.

O porta-voz da Lyft afirmou à imprensa americana que sua empresa está “focada em fazer da propriedade sobre um automóvel algo opcional, fazendo com que mais pessoas compartilhem suas viagens”.

A Uber vai na mesma linha, e reafirma seu objetivo a longo prazo de findar a dependência sobre veículos pessoais, o que permitiria uma mistura de transporte público e serviços como o oferecido pela empresa.

Como reportamos no Diário do Transporte no dia 21 de fevereiro, a Uber acabou de lançar a sua opção Express Pool. Relembre:

Uber estreia nova modalidade nos EUA: como no transporte coletivo, passageiro usará pontos fixos para embarque

Segundo Christo Wilson, professor de ciência da computação da Universidade Northeastern de Boston, a modalidade poderá ser boa para o trânsito, caso as taxas de ocupação dos veículos cresça.

Por outro lado, segundo Wilson, pelo fato das viagens por Uber Pool e possivelmente pelo Express serem baratas, é quase certo que retirarão as pessoas dos modos tradicionais de transporte público, como ônibus.

O professor completa dizendo que o consenso crescente é que o compartilhamento de veículos tem aumentado o trânsito, reforçando o que as pesquisas dizem sobre os aplicativos.

A se confirmar as pesquisas, com aplicativos sem regulação teremos mais viagens de automóveis, entupindo as ruas e esvaziando o transporte coletivo.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

Com dados publicados no jornal Chicago Tribune (EUA) de 28/2/2018