[OPINIÃO]: A intolerância política no Brasil é um risco à democracia?


Por Afrânio Garcez*

O ano eleitora mal começou, mas já se sente um clima tenso entre as pessoas. Não que essa constatação seja alguma novidade, na realidade desde o segundo semestre de 2013 o conceito de sociedade vem se enfraquecendo e a população vem deixando suas angústias e ódios substituírem o respeito pelo próximo. Como resultado, a intolerância ganha cada vez mais força e espaço.

É fácil perceber esse cenário no cotidiano. Mesmo que as pessoas não o confessem de maneira aberta, muitas o sentem. Diante deste cenário, é urgente a necessidade de se fazer uma reflexão sobre o porquê de não estarmos vivendo bem em sociedade. Vivemos um período de recessão econômica e crise política que há muito não se via, a primeira que atinge diretamente a geração nascida entre o fim da década de 1980 e início dos anos 90, exatamente a faixa etária que está ganhando protagonismo.

Crises políticas e econômicas são mais comuns do que se parece, entretanto, nessa em específico, o que mais se destaca é o fato de as pessoas estarem reagindo de forma mais agressiva à adversidade. “Existe um investimento no sentimento da insatisfação sem causa. A narrativa é que você faz tudo que o mundo manda fazer: vai à escola e tira boas notas, arruma um emprego, casa, tem filhos, ganha dinheiro. Ainda assim existe um sentimento permanente de que falta algo. Essa lacuna de quando em quando é direcionada para a resposta mais simples de que o outro é culpado por essa insatisfação. E o que está faltando na realidade foi ‘roubado’ pelo outro”, comenta o psicanalista Christian Dunker.

O senso comum utiliza-se dos conflitos ideológicos para justificar esse momento hostil que estamos vivendo, porém só isso não basta como resposta. Citar a polarização política não deixa de ser argumento válido, porém quando se bate apenas nessa tecla camufla-se a complexidade da situação atual. O brasileiro está se sentindo vulnerável, o governo que antes acenava com um futuro melhor se perdeu no meio do caminho e agora se tornou o único vilão e causa de todos os males. Quem assumiu o posto passa a impressão de não representar ninguém, e, de certa forma, se sente confortável com essa ideia. Isso vem fazendo com que as pessoas passem a se portar de maneira individualista. “Intolerância deriva da falta de experiência no lugar comum, ou seja, não conseguir mais se comunicar, não compartilhar valores.

Em suma, não conseguir fazer as diferenças naturais se tornarem algo produtivo”, diz Dunker. Quem está se fortalecendo nesse caos representativo são políticos e correntes que buscam o fortalecimento do individualismo como solução. Utilizam um discurso raso para pegar parcela da população que está enfraquecida pela crise e vê nesse ideal uma forma de se restabelecer. Prática comum a todas as correntes políticas. A mensagem do individualismo em uma sociedade fragilizada traz com ela um grande problema, pois abre margem na disseminação do conceito de que a diferença do outro não é algo comum.

O diferente se torna um defeito, algo a ser combatido e as únicas características que merecem respeito são as próprias ou a dos que seguem o mesmo caminho. Christian Dunker acredita que essa ascensão da intolerância é causada por uma cultura cada vez menos ligada ao diálogo. “A intolerância surge quando algo que existe no outro se aproximou além do que você pode suportar, tramitar e eventualmente entender. Nós nos fazemos intolerantes hoje para defender a nós mesmos, nossa tolerância no futuro”. Outro conflito atual é a banalização do significado da palavra intolerância.

Quando a ideia de que o pensamento alheio é algo desprezível, não há como julgar o que é intolerante ou não. Mesmo que a pessoa e seu arredor sejam intolerantes, ela não consegue perceber a gravidade da situação. “Vivemos em um modelo que necessita que seus ‘aliados’ apenas obedeçam. Uma forma de fazer isso é capitalizando a insatisfação através de angústias morais, que são explicitadas por intolerâncias de raça, gênero, classe. Todas são sustentadas por uma insegurança permanente”, completa Dunker.

Ainda que a situação pareça irreversível, existem movimentos que buscam uma sociedade mais justa e solidária. Christian vê com otimismo esse processo e acredita que as pessoas estão prontas para conseguir viver em harmonia e cada vez em condições de igualdade e dignidade, e conclui que é um movimento de longo prazo, mas que valerá o esforço. “Temos que insistir na cultura da tolerância, porém temos que ressaltar que é o começo. A moral da tolerância pode ser usada para aquietar, pacificar as pessoas em situações nas quais elas são exploradas”, finaliza o psicanalista. Finalizando devo fazer uma citação ao artigo do Nelson Mota: “O medo está vencendo a esperança por 7 a 1”.

*Dr. Afranio Garcez, é advogado pós graduado em direito, com várias especializações, inclusive em criminologia, jornalista, escritor, poeta, historiador, membro da Academia Conquistense de Letras, dentre outros títulos.

O texto acima foi enviado por um colaborador. Os textos de colaboradores não representa necessariamente a opinião editorial do Blog do Caique Santos.