Filme Coringa revela a necessidade de uma reflexão sem tabus sobre a saúde mental


Recém lançado no Brasil, o filme Coringa (Joker, 2019) revela a origem de um dos principais vilões da cultura pop mundial. No longa dirigido por Todd Philips, antes de se tornar realmente um vilão, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) é apresentado como um personagem que possui uma doença mental, mas seu tratamento é negligenciado por serviços de saúde. No decorrer da história, Arthur acaba seguindo um caminho de marginalização e preconceito.

Apesar da ficção permear todo o longa, com a personalidade de Arthur sendo revelada aos poucos, o paralelo criado com a realidade torna necessária uma reflexão sobre as doenças mentais e como as ações que promovam a saúde psicológica são essenciais para a prevenção de transtornos. A discussão sobre o tema é ainda mais relevante nesta quinta-feira, 10 de outubro, data onde é lembrando em todo o mundo o Dia Internacional da Saúde Mental.

“O pior lado da doença mental…”

Em um dos momentos do filme, Arthur escreve em seu diário que “o pior lado da doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não a tivesse”, fazendo alusão à batalha que enfrentava contra preconceitos sociais.

Em 1979, após visitar o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, um dos líderes do movimento contrário às instituições psiquiátricas no mundo, convocou a imprensa para dizer que esteve em um lugar semelhante a um campo de concentração nazista, sem qualquer comparação com outro lugar no mundo.

O horror presenciado por Basaglia foi retratado no livro “Holocausto brasileiro”, de 2013, da jornalista Daniela Arbex. De acordo com a jornalista, os pacientes de transtorno mental eram a minoria. A população trancafiada na Colônia eram jovens mães solteiras, pobres, moradores em situação de rua, além de casos como o da Maria de Jesus, paciente diagnosticada com o sintoma de “tristeza”. A unidade esteve em funcionamento entre 1903 a 1980.

“Os manicômios eram unidades com o único propósito de excluir pessoas que a sociedade enxergava como diferentes, distantes de um padrão estipulado como normal. As mudanças que surgiram a partir da Lei da Reforma Psiquiátrica possibilitaram mudanças no modelo de assistência em saúde mental”, comenta Eduardo Guidolin, médico psiquiatra da Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar e diretor Técnico do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) de Mogi das Cruzes, na região metropolitana de São Paulo.

Antes da promulgação da Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que dispões sobre a proteção e direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais, o Brasil foi marcado por instituições manicomiais semelhantes a de Barbacena, como os antigos Hospício Colônia de Juqueri, em Franco da Rocha (SP); o Hospital Ulysses Pernambucano (conhecido como Tamarineira), em Recife (PE); e o Hospital Juliano Moreira, em Salvador (BA).

“Com a nova legislação, o Brasil mudou a sua concepção no tratamento de pessoas com transtornos mentais. Muitas dessas unidades foram desativadas gradualmente, sendo substituídas por uma rede de atendimento. Aos poucos, o Brasil foi alinhando o seu atendimento de acordo com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde e seu Escritório Regional para as Américas, a OPAS”, explica Guidolin.

O fortalecimento da luta antimanicomial e uma legislação voltada para a criação de estratégias de atendimento foram primordiais para iniciar mudanças e o surgimento de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), onde o paciente recebe atendimento próximo da família e com assistência multiprofissional, com cuidado terapêutico de acordo com o quadro de saúde de cada paciente.

“A pessoa com alguma doença mental, ou transtorno psiquiátrico, era totalmente excluída da sociedade, além de sofrer uma perseguição e até zombarias. A Reforma Psiquiátrica foi uma preocupação com a saúde mental e representou realmente um marco, inclusive na defesa dos direitos humanos”, ressalta o especialista.

Uma nova assistência na saúde mental

Em 1992, os Núcleos e Centros de Atenção Psicossocial (os NAPS e CAPS) foram institucionalizados no Brasil. São unidades que oferecem cuidados multiprofissionais intermediários entre o regime ambulatorial e a internação hospitalar. Os CAPS são divididos em modalidades, atendendo adultos, crianças e pessoas com algum tipo de dependência química. Nas unidades, o atendimento é feito por psicólogos, psiquiatras, enfermeiros, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e técnicos.

Um dos exemplos é o CAPS AD de Mogi das Cruzes, onde o paciente – com interesse em se livrar da dependência – tem acesso a consultas, oficinas, entre outras ações de acolhimento. O tratamento personalizado leva em consideração as necessidades e o perfil do paciente. Desde a sua inauguração, em janeiro de 2019, já foram realizados mais de 21 mil atendimentos, sendo que 5.816 se referem ao serviço de enfermagem, 4.300 consultas com psicólogos, 3.365 consultas com psiquiatras, 1.899 com assistentes sociais, além de mais de 5,4 mil atividades terapêuticas, entre música, dança, caminhada e artesanato. A abordagem do atendimento é feita de maneira individual ou coletiva.

“O atendimento proposto por esse serviço faz uma grande diferença no tratamento dos pacientes e substitui um modelo ultrapassado, como os manicômios. É importante destacar que além de humanizar o atendimento, o tratamento busca a reintegração do paciente no ambiente social e familiar”, ressalta Guidolin.

O CAPS AD de Mogi das Cruzes é gerenciado pela Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar, entidade sem fins lucrativos e com mais de 50 anos de experiência na área de gestão em saúde. Esse modelo de gestão, realizado por meio de um contrato firmado com a Prefeitura da cidade, também contribui para a agilidade nos processos que envolvem o atendimento ao paciente.

Atendimento de inclusão

O atendimento na área de saúde mental continua passando por processos que envolvem investimentos em capacitação, insumos, entre outras políticas de saúde pública que fortaleçam e ampliem o atendimento em todo o País. A criação de leitos não é a única resposta no tratamento da saúde mental.

A discussão em torno do assunto envolve um atendimento cada vez mais integrado, que possa contribuir na compreensão das complexidades de cada caso. Apesar da ficção da história no filme Coringa, de acordo com estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão será a doença mental mais incapacitante em todo o mundo até 2020. Cerca de 300 milhões sofrem do transtorno e o preconceito envolvendo o tema ainda impedem as pessoas de buscar ajuda.

“É um assunto que merece continuar em destaque, gerando discussão que provoque a reflexão sobre o tema. Até mesmo um filme de ficção pode nos ajudar nesse debate. Temos que continuar ampliando e melhorando o atendimento, além de reforçar a nossa própria empatia com as pessoas que precisam desse tipo de ajuda “, conclui Guidolin.

Sobre a Pró-Saúde

A Pró-Saúde é uma entidade filantrópica que realiza a gestão de serviços de saúde e administração hospitalar há mais de 50 anos. Seu trabalho de inteligência visa a promoção da qualidade, humanização e sustentabilidade. Com 16 mil colaboradores e mais de 1 milhão de pacientes atendidos por mês, é uma das maiores do mercado em que atua no Brasil. Atualmente realiza a gestão de unidades de saúde presentes em 21 cidades de 11 Estados brasileiros — a maioria no âmbito do SUS (Sistema Único de Saúde). Atua amparada por seus princípios organizacionais, governança corporativa, política de integridade e valores cristãos.

A criação da Pró-Saúde fez parte de um movimento que estava à frente de seu tempo: a profissionalização da ação beneficente na saúde, um passo necessário para a melhoria da qualidade do atendimento aos pacientes que não podiam pagar pelo serviço. O padre Niversindo Antônio Cherubin, defensor da gestão profissional da saúde e também pioneiro na criação de cursos de Administração Hospitalar no País, foi o primeiro presidente da instituição.