​O Direito à Folia: A Cultura como Alicerce dos Direitos Humanos e o Carnaval como Resistência

Por Ronnie Peterson *

Muitas vezes, a cultura é erroneamente percebida apenas como entretenimento, lazer ou um acessório supérfluo à vida cidadã. No entanto, sob a ótica dos Direitos Humanos e da legislação internacional e brasileira, a cultura é muito mais do que isso: é um pilar estruturante da dignidade humana. O acesso aos bens culturais e a liberdade de expressão artística são prerrogativas inalienáveis, essenciais para o desenvolvimento pleno da cidadania. Neste contexto, o Carnaval brasileiro emerge não apenas como uma festa turística, mas como a materialização máxima desse direito, transformando a alegria em ato político e a ocupação das ruas em exercício de soberania popular.

​A compreensão da cultura como direito humano está cristalizada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela ONU em 1948. Em seu Artigo 27, o documento estabelece que “todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade”. Isso significa que impedir um povo de celebrar suas tradições é, em última instância, uma violação de sua humanidade.

​No Brasil, esse entendimento foi elevado ao status de cláusula pétrea social. A Constituição Federal de 1988, apelidada de “Constituição Cidadã”, rompeu com o silêncio de regimes autoritários anteriores e dedicou os Artigos 215 e 216 à cultura. O texto constitucional garante a todos o pleno exercício dos direitos culturais e o acesso às fontes da cultura nacional. Mais do que isso, o Estado brasileiro se obriga a apoiar e incentivar a valorização e a difusão das manifestações culturais.

​Quando o Estado investe no Carnaval ou garante a segurança para que um bloco de rua desfile, ele não está apenas “patrocinando uma festa”; está cumprindo um dever constitucional de proteger o patrimônio imaterial brasileiro e garantir a identidade de seu povo.

​É no Carnaval que a letra fria da lei ganha sangue, suor e ritmo. Como expressão maior das festividades populares, o Carnaval opera uma suspensão temporária das hierarquias sociais rígidas. Na rua, o direito à cidade — muitas vezes negado às periferias — é reivindicado. A ocupação do espaço público por corpos que dançam é uma forma potente de cidadania.

​Durante os dias de folia, a cultura popular brasileira demonstra sua capacidade de antropofagia e reinvenção. As escolas de samba, os maracatus, os frevos e os blocos de rua são guardiões da memória histórica, narrando enredos que muitas vezes os livros oficiais esqueceram. O Carnaval é, portanto, uma ferramenta pedagógica e um ato de afirmação identitária que cumpre rigorosamente o que preceituam os documentos da ONU sobre a diversidade cultural.

​Contudo, seria ingênuo ignorar as contradições do Brasil. Como falar em “direito à alegria” em um país marcado por abismos sociais e violências cotidianas? É aqui que a sabedoria do mestre Ariano Suassuna se torna fundamental para entender a alma brasileira.
​Suassuna, defensor ferrenho da cultura popular e do “Brasil real”, rejeitava a ideia de que a festa do povo fosse uma alienação. Para ele, a arte e o riso eram armas de sobrevivência. Em uma de suas reflexões mais potentes, ele declarou:

​”Eu tenho duas armas para lutar contra o desespero: a beleza e o riso.”

​Para Ariano, e para o povo que ele tão bem descreveu, a festividade não é a negação do sofrimento, mas uma resposta altiva a ele. O Carnaval brasileiro carrega essa dualidade: é uma explosão de vitalidade em face da dureza da vida. Quando o brasileiro vai à rua cantar, mesmo enfrentando desemprego, violência ou descaso estatal, ele está cometendo um ato de rebeldia. Ele está dizendo que sua humanidade e sua capacidade de sonhar permanecem intactas.

​Essa alegria, portanto, é uma forma de protesto. É a recusa em se deixar abater pela miséria imposta. É a reivindicação do direito de ser feliz, ainda que momentaneamente, como uma premissa básica da existência.

​O direito à cultura, assegurado pela ONU e pela Constituição de 1988, é o direito de existir plenamente. O Carnaval, como síntese dessa cultura, é o momento em que a cidadania se veste de fantasia para enfrentar a realidade crua.
​Ao olharmos para a multidão que segue o trio elétrico ou para a comunidade que desce o morro na escola de samba, não devemos ver apenas foliões, mas cidadãos exercendo um direito fundamental. Eles personificam a lição de Suassuna: utilizam a beleza e o riso não para esquecer quem são, mas para lembrar ao mundo que, apesar de tudo, o povo brasileiro persiste, resiste e, acima de tudo, celebra a vida.

*Ronnie Peterson, advogado com atuação na área cível, consumidor, trabalhista e família. Militante e defensor dos Direitos Humanos

 

Foto: Fundo Carnaval Fotos de banco de imagens por Vecteezy

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